Vem
uma pessoa de ler Saramago e parece que acaba assim com umas bexigas na cabeça,
umas metástases esquisitas agarradas ao sebo dos sonhos, uns derrames de
humores próprios que saem nas devidas alturas dos devidos lugares, com as
devidas missões, que nem sempre, não se reunindo as condições devidas, resulta
nos devidos fins, nas finalidades a que foram, divina e devidamente,
incumbidos, sabe alguém quais, quem, porquê.
Vem
o Rafael de ler Saramago e acaba pior… «o mundo de cada um é os olhos que tem»,
marcou-me no Memorial, marcou-me na vida. É uma frase bonita, não fossem os
meus olhos ter a mania de ser copiosos daquilo que leem, não fosse a minha
mania a de guardar em mim todas as vontades que Blimunda recolhia para as
esferas, e não estaria agora, nesta espécie de neo-modernismo sem grandes
veracidades, discorrendo torrentes de frases que não dizem coisa alguma.
Tivesse
eu nascido numa aldeia e, de todos os rapazes, seria o bicho mais estranho,
aquele que brinca sozinho a coisas sem piada, aquele que tem mas mundos na
cabeça que o Universo na realidade. Seria aquele gajo que voava na trotineta,
pelos caminhos de terra batida; aquele miúdo que dançava em círculos infinitos
debaixo da lua cheia de agosto; aquele que saltava para cima das folhas do
Outono castanho; aquele que parava, no tempo, na vida, no espaço, debaixo da
chuva fria de novembro. Tivesse eu nascido numa aldeia e nada de mim era eu.
Porém,
não nasci. Quiseram as coisas que mandam nisso que eu nascesse na terra menos
aldeia que Portugal conhece. Nasci, há já dezanove anos, numa vila de Cascais
que já não conheço. Chamo-me Rafael e sou a mais recente contratação do Zé.
Não
sou do Norte. Não sendo do Norte falta-me a brejeirice que alguns procuram.
Falta-me o sotaque, o vocabulário e a verborreia; falta-me a alegria de ser
portuense, a nostalgia de viver nos vales do Douro, entre a Régua e Resende;
entre os rios, as Cidades e as Serras.
Não
se pense, contudo, que vivi muito em Cascais… Essa terra foi onde respirei os
primeiros ares, vi as primeiras cores, ouvi as primeiras palavras… Nada disto
conta naquilo que sou, porque não foi em Portugal que me fiz Rafael.
Inglaterra,
foi lá que me construí, desconstruí e guardei os cacos que agora vou
desempacotando, em páginas de tudo, de nada, de coisa nenhuma. Páginas brancas,
borradas pelas lágrimas que derramaram sobre elas. Páginas caladas, que não
dizem nada.
Vim
de uma pequena cidade no nordeste de Inglaterra há dois anos, foi quando
aterrei na Portela que renasci, revi a minha posição no mundo e cresci. Desde
então vou escrevendo o que nunca disse.
E
agora que o Zé foi dar uma volta, aqui fico, qual fiel depositário mor desta
obra de Vontades e esforços megalómanos, em jeito de Convento memorável,
aterrado no alto da Vela, num confim qualquer da Internet, escondido debaixo de
vimes e moitas secas.
«Outro
valor mais alto se alevanta» - o Camões o disse, a prática o demonstra. Mas que
obra mais valerosa existirá que o Dear Zé? Muitas, é provável, mas para mim,
fiel e pobre Egas Moniz, qualquer condado se assemelha a Estado grandioso.
Prometo
não exagerar das próximas vezes que aqui escrever, afinal, quem é que está para
ler 600 palavras aqui, num blogue abandonado pelo Criador, deixado a um Messias ou usurpador (depende do gosto)?
Vem
uma pessoa de ler Saramago e acaba assim, com vontade de não parar de ler. Vem
o Rafael de ler Saramago quando encontra o Zé abrindo as portas…