Abeirei-me dela e disse-lhe boa noite. Ela permaneceu queda e muda. Sentei-me a seu lado e do meu saco de tiracolo, tirei a térmica com chá quente, e remexi à procura do pequeno copo de plástico extra que sempre levo. O breu não ajudava na busca e ela disse numa voz de palavras espaçadas: Não é preciso. Tenho um. E apontou-o para mim.
Enchi os copos. Ergui os olhos ao céu e bebi o líquido que fumegava perto dos lábios. Ela acompanhava os meus gestos no silêncio do seu espaço. E assim, aos poucos, iniciámos uma longa conversa. Já a noite era quase dia, já os barulhos se intensificavam, e ela, pegando num dos seus sacos,vasculhou-o.
O que tem aí, perguntei-lhe. Ahh, apenas um saco cheio de coisas minhas, respondeu, e continuou na procura. Ah ah, aqui está ele! Voltando-se para mim, começou:Você é um moço bem parecido. E sabe uma coisa, não me leve a mal, e pegando-me na mão, abriu-a, e nela depositou o que do saco tinha retirado, fechou-a com firmeza. E continuou, mas os homens solteirões são uns tontos! Arranje-me já uma mulher, enquanto é tempo! Dei uma gargalhada. E prometi-lhe, que o faria.
Era o S. António, que me tinha dado.
Esta, como outras coisas, tenho-as aqui guardadas numa caixa, cheia de coisas deles.
Não mais a vi. Não sei se vive ou se ainda sobrevive. São pessoas que não desistem da viver, mas que o fazem da vida. Histórias e grandes noites passadas. Um pouco de mim, para quem nada pede e pouco espera...
(O filme Wall.E, revi-o ontem à noite, e o romance do Wall.E com e Eve, fez-me recordar delas, da minha Eve e da senhora "com um saco cheio de coisas") - La vie en rose


