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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A carreira 21 - "Inspira!"


A tarde não estava famosa para um dia de verão. O vento corria e levantava no ar o pó de uma obra civil uns metros à frente.
Coçou os olhos, cruzou os braços e encostou-se esticando as pernas e descaindo ligeiramente o corpo no assento. E ficou ali, pensativo.
Não tardou a ouvir passos. Um homem sentou-se a seu lado e cumprimentou com um "boa tarde".

   - Boa Tarde.
   - Já passou o 21?
   - Mesmo há bocado. Agora só daqui por meia hora.
   - Não faz mal. Tenho tempo. 

O homem olhou para a parede envidraçada da paragem, observou a publicidade, e sorriu.

   - Curioso, ontem estava com ela no sofá, naquela pastelice depois do almoço, quase a horas de lanche, e passou esta publicidade na tv, e ela disse-me assim, com ar de quem já lhe tinha passado a pastelice:   Amanhã dizemos: "passei o fim de semana inteiro a  a c a s a l a r!!" Entrelaçou as suas pernas nas minhas  e eu fugi de imediato com os dedos para dentro das suas cuecas...Uma verdadeira fornalha! É o que lhe digo...

Apoiou um cotovelo sobre o braço e encostou a mão fechada, à boca e nariz. Algo encafifado com a inconfidência,  deixou-se ficar em silêncio. As lembranças corriam-lhe velozmente, e numa gargalhada, retomou:

   - Sabe quando lhes ficámos com o cheiro, e no meio do nada, assim como agora, levamos os dedos ao nariz e a sentimos, ali, entre dedos...?!

Ele anuiu, numa interjeição.

   - Hmm hmm...

Quase num salto, levantou-se em euforia, esticou o braço para fazer paragem ao autocarro, e voltando-se para ele, aprumado, como se estivesse em sentinela, de olhos fechados e com um grande sorriso nos lábios, disse:

- Ainda a tenho aqui...!

Correu os dois dedos pelo nariz, e sorrindo, inspirou.

- Afinal foi rápido o 21! Desculpe lá este meu esbardalhar, mas passei o fim de semana inteiro a A-C-A-S-A-L-A-R! 

Num rodopio, saltou para dentro do autocarro, acenando. E ele ficou ali, a vê-los partir.
Riu-se com a inocência das palavras ditas pelo rapaz. Levantou-se a pensar que também a segunda-feira, era um bom dia para.... hmm hmm.... hmmm hmmmm!



segunda-feira, 27 de julho de 2015

A carreira 21 - "Do you want a chocolate?" ( Nova Paragem )


Fazia já algum tempo que se sentava ali naquele banco da paragem de autocarro. Quase diariamente, mas sem hora marcada, dirigia-se aquele sítio, e aí, por tempo indeterminado, mas sempre antes do anoitecer, passava algum tempo. Não era muito concorrida, pelo menos à hora a que ali estava, fosse ela qual fosse, talvez pela manhã o tivesse sido, pois que havia sempre muitas pessoas à saída, mas à partida eram sempre contadas a dedo.

Chegava, sentava-se e esperava que alguém fizesse o mesmo. Entretanto observava os passantes, escutava os ruídos, sentia a vida que por ali circulava, e esperava. Acabava sempre por vir alguém. Alguém que ficava e que contava algo. Havia sempre uma história, um segredo, uma confissão,um mexerico, um desabafo. Havia sempre algo que dizer, mais não fosse sobre o tempo, e não sobre o tempo que decorria, mas sobre o calor que estava, e que ele tanto gostava.

Há dias pensara em levar uma caixa de chocolates e oferecer aos que consigo partilhavam uma, ainda que curta, conversa. Sorriu e lembrou-se daquela cena do filme do Forrest: life is like a box of chocolates, you never know what you're gonna get... sim, tal e qual como as histórias que ali ouvia, nunca sabia o que dali sairia. Mas achou por bem não o fazer. Nos dias que corriam, as histórias que se ouvia, não ele, mas as que o mundo ouvia, havia sempre que ter cuidado, pois os gestos já não eram tidos como antes, e o que outrora era um agrado, hoje poderia ser uma perversão. E assim, decidiu agraciar as pessoas com um simples "obrigado", um sorriso e o desejo de um bom dia.

Em tempos, frequentara outra paragem, mas achou por bem voltar aquela que o fazia sentir mais próximo das pessoas. Não que a outra fosse menos agradável, não que as histórias que ouvia fossem menos interessantes, não! Mas simplesmente porque as vistas por ali eram bem melhores, e havia sempre mais por onde pôr a vista... oh, se havia!

Olhou o relógio e inclinou a cabeça ao céu, umas pequenas nuvens espaçadas pincelavam-no, mas o sol, daqui a nada ia esbrasear, e portanto, mais se estreitava o tempo que ali tinha. 
Alguém chegaria! Chegava sempre alguém...