terça-feira, 20 de maio de 2014

Fui Eu Quem Chegou


Vem uma pessoa de ler Saramago e parece que acaba assim com umas bexigas na cabeça, umas metástases esquisitas agarradas ao sebo dos sonhos, uns derrames de humores próprios que saem nas devidas alturas dos devidos lugares, com as devidas missões, que nem sempre, não se reunindo as condições devidas, resulta nos devidos fins, nas finalidades a que foram, divina e devidamente, incumbidos, sabe alguém quais, quem, porquê.

Vem o Rafael de ler Saramago e acaba pior… «o mundo de cada um é os olhos que tem», marcou-me no Memorial, marcou-me na vida. É uma frase bonita, não fossem os meus olhos ter a mania de ser copiosos daquilo que leem, não fosse a minha mania a de guardar em mim todas as vontades que Blimunda recolhia para as esferas, e não estaria agora, nesta espécie de neo-modernismo sem grandes veracidades, discorrendo torrentes de frases que não dizem coisa alguma.

Tivesse eu nascido numa aldeia e, de todos os rapazes, seria o bicho mais estranho, aquele que brinca sozinho a coisas sem piada, aquele que tem mas mundos na cabeça que o Universo na realidade. Seria aquele gajo que voava na trotineta, pelos caminhos de terra batida; aquele miúdo que dançava em círculos infinitos debaixo da lua cheia de agosto; aquele que saltava para cima das folhas do Outono castanho; aquele que parava, no tempo, na vida, no espaço, debaixo da chuva fria de novembro. Tivesse eu nascido numa aldeia e nada de mim era eu.

Porém, não nasci. Quiseram as coisas que mandam nisso que eu nascesse na terra menos aldeia que Portugal conhece. Nasci, há já dezanove anos, numa vila de Cascais que já não conheço. Chamo-me Rafael e sou a mais recente contratação do Zé.

Não sou do Norte. Não sendo do Norte falta-me a brejeirice que alguns procuram. Falta-me o sotaque, o vocabulário e a verborreia; falta-me a alegria de ser portuense, a nostalgia de viver nos vales do Douro, entre a Régua e Resende; entre os rios, as Cidades e as Serras.

Não se pense, contudo, que vivi muito em Cascais… Essa terra foi onde respirei os primeiros ares, vi as primeiras cores, ouvi as primeiras palavras… Nada disto conta naquilo que sou, porque não foi em Portugal que me fiz Rafael.

Inglaterra, foi lá que me construí, desconstruí e guardei os cacos que agora vou desempacotando, em páginas de tudo, de nada, de coisa nenhuma. Páginas brancas, borradas pelas lágrimas que derramaram sobre elas. Páginas caladas, que não dizem nada.

Vim de uma pequena cidade no nordeste de Inglaterra há dois anos, foi quando aterrei na Portela que renasci, revi a minha posição no mundo e cresci. Desde então vou escrevendo o que nunca disse.

E agora que o Zé foi dar uma volta, aqui fico, qual fiel depositário mor desta obra de Vontades e esforços megalómanos, em jeito de Convento memorável, aterrado no alto da Vela, num confim qualquer da Internet, escondido debaixo de vimes e moitas secas.

«Outro valor mais alto se alevanta» - o Camões o disse, a prática o demonstra. Mas que obra mais valerosa existirá que o Dear Zé? Muitas, é provável, mas para mim, fiel e pobre Egas Moniz, qualquer condado se assemelha a Estado grandioso.

Prometo não exagerar das próximas vezes que aqui escrever, afinal, quem é que está para ler 600 palavras aqui, num blogue abandonado pelo Criador, deixado a um Messias ou usurpador (depende do gosto)?



Vem uma pessoa de ler Saramago e acaba assim, com vontade de não parar de ler. Vem o Rafael de ler Saramago quando encontra o Zé abrindo as portas…

23 comentários:

  1. Assim sendo, isto promete. Afinal o Dear Zé não atirou a moeda ao ar...:)

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  2. Hmmmm, podia jurar que sei quem és, Rafael.
    Belo texto :)

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    1. Talvez até saibas! Eu tenho outro blogue, adivinhas qual é?
      E obrigado :D

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    2. Queres que adivinhe?

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    3. Não deverá ser muito difícil... :D

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  3. E o que foi dito esta deveras muito bem escrito :))

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  4. Lontra que fala assim não é gaga ;)

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  5. "em páginas de tudo, de nadadecoisanenhuma."
    Já vi isto nalgum lado.
    Iria jurar que este puto não me é estranho, comaminha sócia Chata bem refere lá mais pra cima. :))

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    1. Como referi para a tua sócia, eu tenho outro blogue, talvez seja daí.
      E talvez alguém já tenha dito o que aqui escrevi, não seria de estranhar.

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  6. Vem uma pessoa de comer o pão para não andar a ver as entranhas às pessoas e dá-se com isto. Lindo serviço!

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    1. Viste-me por dentro? Como foi?

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  7. Neste teu post de abertura, era merecido um comentário nobre, mas como vem um gajo, ainda, de lavar a pestana, resta-me apenas dizer que aceitei em cheio, sócio! ;)
    Belo post!

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    1. *acertei, era a palavra pretendida. Acertei em cheio, só ainda não acerto bem no teclado...
      :-)

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    2. :D

      A alegria não me cabe no alforge!

      (e pronto, vou parar com as referências ao Memorial)

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  8. Eh pá, muito para ler. Bem vindo, Rafael. Até já, Zé :-)

    R.

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    1. Sou muito de tudo, em tudo, dizem ;)

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  9. Hum...Cascais, Régua...bom presságio. :-)

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    1. Achas? Ainda bem... Mas hás de me explicar isso, ok?

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    2. Acho. Claro que sim.

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    3. Bora lá, explica. ;)

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    4. Nasci e sou de Cascais. Com raízes na Régua. :-)

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